terça-feira, 27 de maio de 2014

O Mendigo


Era uma rua movimentada. Cheia de carne sórdida, mas ele aparentava estar fresco e limpo. O cheiro deles não lhe incomodava, mas o dele talvez os incomodassem, tamanho era o espaço que entre eles existia.
Fumava meios cigarros apagados e deitava-os fora ainda acesos. Por vezes levantava-se mas esquecia-se que estava sentado, e quando se sentava depressa se levantava. Parecia aquele tipo, ou seria mesmo esse modelo, que Deus se tinha esquecido dele, ou do barro para ele, numa esquina qualquer. Era um prostituído do acaso, deitado a um abandono desprezante. Uma das partes falhara com ele. Deus ou o Mundo, ou ele próprio.
Por momentos senti pena. Talvez não fosse o único, mas isso pouco me importava. Alguma coisa me dizia que aquele sujeito era de recusar compaixão e numa impulsividade, senti não compaixão, mas sim, inveja dele. Tantas vezes me vitimizei que me esquecera quem realmente foram e são as vítimas e lá estava aquele tronco cheio de aversões acumuladas a recusar piedade.
Afastou-se da mácula que o rodeava e focou-se num reflexo, que estava há bem menos tempo do que ele neste pedaço de despejo, mas mais bem tratado do que ele, por vários momentos. Não percebia a demora. Irritava-me não poder observá-lo. Beber aquele momento. Estava a aprender algo, mas não sabia o quê. Deitei o cigarro fora e nem isso lhe desviou a atenção, como outrora outros o tinham feito. Fui para perto dele. Estava a tentar ver o seu rosto. Segui-lhe a acção e foquei o meu reflexo no dele. Eramos iguais.

                                                                                                                Autor desconhecido

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